domingo, abril 18, 2010

CACHO DE MARIMBONDO

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Hoje foi um domingo bem bonito. Nunca achei graça nos domingos. São depressivos. Acordei descansado e abri um vão na persiana do meu quarto. O sol deu uma lambida nos tacos do chão. Tava tudo silencioso lá fora. O que é raro. Minha janela da de cara pra Faria Lima que tem sempre um trânsito maldito. Tem muito busão que passa e são barulhentos pra cacete. Já to até acostumado, mas sempre acordo cansado. Não tenho sossego. Durmo com tampões pra ajudar.

O vento tava forte lá fora. Sacudiu a persiana e o cacho de marimbondo que tem dentro dela se manifestou. Fez o barulho costumeiro. Fazia tempo que não o ouvia, pensei que todos os marimbondos tivessem mortos, mas não. Eles ainda estão lá e bravos. Cada vez mais bravos. Rezo pra que nunca fujam dali. Acho que estão presos há mais de 80 anos e imagino que sejam gigantescos.

A luz que vazou pela brecha da persiana deu um certo charme na manhã. Fiquei na cama lendo Bukowski. Fazia tempo que não lia nada. Não conseguia. Ando sem tempo, sem ânimo, mas é muito prazeroso. Pensei em colocar um cd de Anton Bruckner, pra me acompanhar na leitura, mas o silêncio conseguiu ser mais atraente do que a música dele. Fui muito resistente, pois tava convicto de que a música clássica nesta manhã também combinaria muito com o charme da luz de alguns dos raios do sol.

Os fins de tarde do outono tem um brilho diferente. Procuro sempre estar na rua neste horário. O sol procurando um lugar pra se esconder é de uma beleza ímpar. Ele fica tímido nesta época do ano e prefere não irradiar muito. Somos mais amigos assim. Ele me tosta menos. Daqui a pouco esfria pra valer. O inverno. Confesso que mesmo tendo uma tara por noites geladas, saio durante o dia procurando pelo menos por um pedaço do sol, enquanto no verão brinco de esconde-esconde com ele.

Daqui a pouco ficaremos encolhidos em nossas camas, observando lágrimas se transformarem em pedras de gelo, enquanto pensamos num jeito prático de espantar o frio, enquanto na nossa vitrola toca uma bela música, ou esperamos por um sonho que espante os antigos pesadelos, ou tristes lembranças, ou até mesmo aquela sensação criada pelo cheiro daquele doce perfume. Um dia entenderemos que podemos realmente mudar, mesmo que o frio doa, ou rache nossos lábios. Aprenderemos que por algumas coisas valem a pena chorar até a última gota.

Sempre fazemos escolhas equivocadas. Apaixonamos-nos no momento errado, ou insistimos em não gostar de quem realmente nos ama. Vivemos cheios de medo. E na verdade não vivemos o que temos que viver, porque a merda do medo não nos permite dar um abraço daqueles bem apertados na Felicidade. Não sei onde ando com a cabeça pra escrever uns troços nada a ver. Não sei por onde ando desde que resolvi... Só sei que preciso tomar mais cuidado com a porcaria do cacho de marimbondo. Na hora que conseguirem escapar to fodido. Acredito que todos já devem estar de bengalas, mas mesmo assim deve doer pra cacete as ferroadas desses bichos gigantescos.

3 comentários:

camilo disse...

Maribondos de bengalas é? Ou são ferrões pontudos? Ou maribondos mouribundos?
Pankada, mais uma excelente página de seu diário blogueiro. Quando isso vai se tornar livro, compiladinho, com desenhos para vender nas praças.
Um abraço.

Leda Pacheco disse...

genial!

anne iris disse...

muito bom paulinho... não foram bobagens escritas! beijo