terça-feira, agosto 17, 2010

MALDITOS SONHOS EM NOITES FRIAS

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Nesses dias frios tenho tido sonhos ímprobos. Tenho preferido ficar sob os cobertores de lã enrolados sobre minha cama. Tenho seguido o choro estranho que começa no andar de baixo, como o rugido de um leão perdido no telhado da casa de alvenaria da vizinha da vila de onde minha mãe cresceu.

Nesses dias frios, que tanto esperei, abri mão de chocolates quentes, que aquela minha avó do tapete voador preparava, enquanto eu me estilhaçava com pequenos pedaços das sobras das janelas dos apartamentos dos filmes musicais da década de 30.

Nesses dias frios ando sem roupa pelas ruas de Urano. Ando abraçando indigentes e secando seus cabelos com secadores de lojas de “eletrodomésticos falsificados”. E abro todas as janelas para que o vento traga as mais raras canções, vindas da Europa, Ásia, ou da vitrola que vejo ao lado do fogão a lenha com minha luneta hightech aqui do vitrô do meu banheiro, num apartamento distante quilômetros do meu.

Tenho dormido mais do que deveria... nesses dias tão gelados. Tenho cantarolado pequenas frases de comerciais de margarinas cremosas bem mais do que deveria.

E nesses dias frios decoro os textos das novelas de uma antiga emissora falida e os atiro sobre os parabrisas de carros desgovernados guiados por meigas criaturas revelhuscas perdidas na Washington Luis em madrugadas nebulosas.

Leio romances fajutos de autores esquecidos, de autores desconhecidos e de personagens inermes, que buscam, buscam e buscam... até morrerem. De personagens que esperam que algo aconteça amanhã. Personagens que perdem sua história neste momento, pensando que pode aparecer algo melhor depois, mas o depois nunca chega. E choram como a vizinha do andar de baixo, ou como crianças quando perdem seus pirulitos espirais, das cores do arco-íris, de onde consegui minha primeira barra de ouro.

Tenho tatuado diamantes debaixo do superfícilio cicatrizado por causa de um golpe perdido na madrugada de segunda-feira daquele ano que sempre quis não lembrar. Fui atropelado enquanto descia uma banguela sobre uma mountainbike e o aparelho que eu usava pra desentortar os dentes, rasgaram meu beiço de ponta a ponta rendendo-me 50 pontos mal costurados por um açougueiro de plantão de beira de estrada. Foi numa noite fria, madrugada de segunda-feira. Eu tinha 18 anos e hoje tenho um pouco menos. Tinha alguns juízos e agora todos já partiram. Faz um frio de lascar no meio da rua. Meu dedão partiu ao meio depois que a neve o congelou.

Ahh, nesses dias frios... sinto muita dor.

3 comentários:

Diego Torraca disse...

Que texto bom! Muito bom!

Léla disse...

Somos bichinhos tropicais. No frio, nossas dores são maiores.
Não há de ser nada. O verão enlouquecedor chegará logo, te fazendo desejar um pouco de refresco.
Ta com frio? Bate a bunda no rio! ;)
Sds

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Sei...autores esquecidos. Aqueles volumes, mas leia O Efeito Espacial, rsrsrs. Pankada, que inveja! Que conteúdo excelente e jogo de corpo excelente, certeiro. Não jogue seus textos, heim. São obras nossas, da humanidade. Um abraço.