quinta-feira, janeiro 22, 2009

BOLO DE MERDA

BOLO

Quando cheguei em casa ela já tinha arrancado um dos seus olhos. Exatamente como disse que o faria. Os vizinhos estavam todos lá embaixo, em pânico.

Apareci na sacada e mandei todos irem praquele lugar. Queria ficar só, sem aporrinhação. Eu vi a ambulância saindo com ela no caminho.

O sangue estava por toda parte. Abri a porta da geladeira e peguei uma cerveja. Empurrei o sofá até a geladeira de porta aberta e passei o resto dos dias sentado ali com aquela latinha de cerveja na mão. Não tive coragem de abri-la. Talvez porque não queria acabar com a minha bebida, ou talvez porque eu precisava só da companhia dela.

Um dia o telefone tocou e foi então que me levantei. Eles queriam que eu fosse vê-la no hospital, mas eu preferi não ir. Não no dia do seu aniversário. No hospital em dia nenhum. Fiz um bolo e comemorei com o gato que eu havia lhe dado no aniversário passado, há exatamente dois meses atrás. Ele não quis bater palmas e nem cantar parabéns comigo, devia estar triste, sentindo sua falta.

Guardei o bolo inteiro na geladeira, preferi esperar voltá-la. No mês seguinte me fiz uma supresa. Vendei meus olhos e fui até a árvore que eu queria lhe dar de presente. Quando cheguei, tirei a venda, coloquei uma música e fiquei conversando com ela, como se ela estivesse na minha frente, fiquei vendo-a sorrir, ouvindo-a dizer que não acreditava e que era o presente mais lindo que já tinha ganhado. Era só uma velha árvore e nada mais. A música tava ficando triste.

Entrei no carro e voltei pra casa. O telefone nunca mais tocou, mas eu sabia que ela estava esperando o momento certo pra entrar pela porta da frente de surpresa, linda como só ela sabia ser, como toda jovem garota é, e me dizer qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.

3 comentários:

Camilo I. Quartarollo disse...

Bom texto novamente. Triste, mostra o ser humano em sua essência, em sua contradição codidiana e seus sonhos querendo despertar, sem muito explicar, se auto explica. A vida é assim e acabou. Um abraço, Paulinho.

Pankada disse...

Ainda não descobri se é triste ou não a vida ser assim... abração Camilo

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom